terça-feira, 11 de maio de 2010

Dia 10

Para acompanhar melhor esta série recomendo a leitura do Prólogo.

E chega o dia mágico em que podemos, enfim, falar. Este é o último dia na rotina do curso, que encerra na manhã do dia 11 com uma meditação e discurso finais. Em meio à expectativa, após a meditação da manhã, depois da qual termina o Nobre Silêncio, um colega solta um berro no meio da sala de meditação: "Então agora já pode falar??!?!?". Gargalhadas gerais, a professora diz calmamente e bem baixinho que somente fora da sala de meditação. De agora em diante pede-se manter silêncio dentro da sala e em seus arredores. Muito necessário, pois uma gigante euforia toma conta da galera depois que a fala é liberada, e começamos a perceber já na troca de impressões sobre o curso que começa a rolar solta. É então que vemos que muito do que passamos no curso os colegas também passaram: desde estranhamentos, alegrias, decepções, medos até as divertidas e muitas vezes assustadoras aventuras com os insetos. De muitas delas, inclusive, você gostaria de nunca ter tomado conhecimento.

Outra coisa interessante é saber o outro lado de alguns eventos sobre os quais tivemos somente a nossa visão e versão. Algumas coisas que para nós foram acontecimentos bobos, para outros colegas foi um drama pior que de novela mexicana, o que também é um aprendizado. Em princípio não dá mesmo vontade de voltar a falar e você fica com um pouco de horror da troca, e principalmente dos mais falantes. Mas aos poucos dá para ver a importância daquele momento "intermediário" antes de voltar à rotina e ter uma visão mais ampla das conversas em geral.

Também observava como era necessário ter cuidado ao falar e ouvir naquela hora. Você fica chocado com as coisas que algumas pessoas falam (imagine se vai direto pro mundo lá fora...), e percebi que algumas pessoas estavam particularmente sensíveis ao que era dito sobre elas. Rolavam umas cíticas a reações que as pessoas haviam tido em alguns eventos, rolavam trocas de impressões sobre eventos ocorridos com terceiros. Enfim, cada um passa por uma coisa meio épica muito própria durante o curso, e não dá pra esperar que todos tenham saído exatamente "purificados" da aventura, é preciso respeitar absolutamente tudo.

Outro tipo de meditação?!?!?

Neste dia nos é ensinado a praticar Metta-Bhavana, outro tipo de meditação onde tiramos o foco de nós mesmos e praticamos pensamentos de amor e compaixão pelo próximo. Pense em tornar-se um grande ponto de luz que emana boas vibrações para todos. Sim, é possível. Primeiro temos que fazer uma análise e nos certificarmos de que naquele momento não estamos cultivando nenhum sentimento de raiva, aversão, e então passamos a focar na felicidade de todos os seres. É como se toda a sua evolução na técnica o levasse a isso. Comecei a imaginar e a experimentar como era possível aplicar esta incrível mudança em cada momento da vida, em vez de gerar mais sofrimento, gerar somente boas vibrações. Foi uma seção muito especial para mim pois era a culminância de tudo o que havia passado e pensado durante o curso, e parecia muito natural que o objetivo fosse este: sair do foco de mim mesma e compartilhar as coisas boas. Não há como descrever como o universo inteiro (ou ao menos o seu e/ou sua idéia de universo) de repente faz sentido, não há palavras e mesmo com as limitadas que temos seriam muitas.

Zzzzzzzzzzzzzzzz....

Ok, para não ficar muito viajante posso dar dois exemplos. Pensei em minha relação com a prática do karatê, no propósito em se praticar o karatê (uma questãozinha chata e constante, que assombra, vai e volta...), e que não havia muito sentido em praticar e desenvolver muito a sua técnica e não partilhar (seja trocando idéias com os colegas, seja dando aulas). Imagine se todos os grandes mestres que tornaram possível que hoje tenhamos acesso a esta maravilhosa prática tivessem praticado e guardado sua evolução para si (e tenho certeza de que alguns o fizeram). Imagine que você tivesse a jóia mais linda e preciosa do mundo e que ninguém a visse ou pudesse também admirar, o que seria ela? Outro: pensei em como me relaciono com as questões de sucesso financeiro. Posso trabalhar exaustivamente num projeto para seu sucesso e me esquecer de cobrar por ele, foco no objetivo de sucesso do projeto, e tenho dificuldades de querer ganhar dinheiro somente por dinheiro. Mas comecei a ver o processo como um todo, e como que o sucesso profissional e financeiro também é um meio de ajudar aos outros, tanto o seu projeto pode ajudar aos usuários quanto o seu sucesso financeiro pode ser uma forma de poder ajudar alguém. Enfim, todas as coisas ganhavam muito mais sentido quando tirava o foco de mim mesma e via tudo como parte de um grande processo que, sim, envolvia outras pessoas e seres e coisas - necessariamente.

De volta ao falatório, ou ordem na cozinha!!!

Por sorte minhas colegas de quarto eram mais que simpáticas, e na hora de dormir, a quietude habitual deu lugar a uma conversa interminável, haja assunto! Ouvíamos muita conversa nos outros quartos também, até que a gerente bateu em nossa porta pedido que diminuíssemos a conversa pois havia gente querendo dormir, bizarro! Conversamos mais um pouco e achamos por bem irmos nanar... Fui dormir com um zumbido pulsante no ouvido (depois de 10 dias nesta prática eu havia ficado muito sensível às sensações e barulhos do corpo, o zumbido pulsante parecia bumbo de escola de samba). Concluí que era o eco de toda a tagarelice do dia e fiquei bolada em como os (milhares de) barulhos que escutamos a cada dia nos afetam e ficam mais registrados e latentes do que pensamos. Credo!

Foto 1 - sala de meditação: http://1.bp.blogspot.com/_GQmIqUpFHDQ/SbMDBSny6tI/AAAAAAAACNA/I-N05-sjtx0/s400/santi.jpg

10 comentários:

Michelle disse...

Muito obrigada por compartilhar sua experiência no curso! fui aceita para um em julho e além de anciosa, estou também com medo de surtar hahaha
muito obrigada de verdade!
teria como dar umas dicas do que levar e falar sobre o alojamento/banheiro?

Empresária neuróticA [DeSiGnEr] disse...

Olá Michelle,
A lista enviada pela organização é bem completa, procure levar mesmo o que está lá, as recomendações feitas pela organização de fato nada têm a ver com regras ou conveniência deles, tudo é pensado para ajudar o meditador e proporcionar o melhor ambiente e recursos possíveis para que você faça um bom curso, possa se concentrar na técnica e não fique preocupada com uma toalha que esqueceu ou coisa assim :) Especial atenção a tênis ou um sapato impermeável para caso de chuva. Procure também levar roupas largas e confortáveis, opção de calça e bermuda para calor, apesar de que já me disseram que julho lá faz um frio do cão, então leve luvas, gorros meias, etc. Esqueça shorts e camisetas sem manga. Aviso que repelente sem cheiro é difícil de achar e caro, recomendo o Repelex Kids, que funciona bem e tem cheiro bem fraco não esqueça de passar nas orelhinhas antes de ir meditar. Se conseguir não leve maquiagens ou muitos cremes, é bem libertador e ajuda a focar na prática. Perfumes ou hidratantes hiper perfumados nem pensar :P

O alojamento comporta cerca de 3 a 5 pessoas por quarto, é simples e confortável. O banheiro é grande e para todas, tem 4 pias, 4 chuveiros e 4 toaletes, tudo flui numa boa, os servidores ajudam na limpeza, os meditadores também podem ajudar mas não deve ser feita nenhuma faxina pesada ou psicótica por quem medita.

Um bom curso para você!

Anônimo disse...

gostaria de saber se posso levar remédios que possa precisar exemplo; de pressão uso continuo, antiinflamatorio ou de grepe e analgesico p enxaqueca. obrigada

Empresária neuróticA [DeSiGnEr] disse...

Olá! O ideal é informar-se com a organização do curso. No formulário de inscrição você já irá dizer se precisa tomar algum tipo de medicação por recomendação médica. Se ainda restar qualquer dúvida pergunte a eles por email pois são super solícitos e simpáticos. Minha experiência é que sempre levo alguns remédios do tipo para dor de cabeça e gripe, pois tenho costume de andar com eles mesmo. Fiz 3 cursos, já tive alguns dias de dor de cabeça, mas nunca cheguei a tomar os remédios por opção de prática. Depois dos cursos passei a tomar menos remédios para dor de cabeça.
Bom curso!
Empresária Designer

Flor Baez disse...

O Vipassana foi a melhor experiência da minha vida! Mágico!

Empresária neuróticA [DeSiGnEr] disse...

É uma experiência incrível mesmo! A gente sente vontade de compartilhar, e que todos tenham a oportunidade de fazer o curso também!

sebastianvalle disse...

Seu neko-ashi é tão bonito..
Parabéns pelo relato!

Empresária neuróticA [DeSiGnEr] disse...

Obrigada pelos comentários, e também pelo seu diário, através do qual pude conhecer o curso :)

Bangayana disse...

Adorei ler sobre sua experiencia lá no Dhamma Santi e relembrar da minha!(A ultima vez que estive lá foi em 2009)Como é bom compartilhar de sentimentos, dúvidas e similaridades. Isso mostra o tanto que somos todos ligados...Obrigada!

Anônimo disse...

Olá.
Post muito verdadeiro e esclarecedor. Estava pesquisando sobre meditação vipassana, depois de assistir o documentário Doing Time Doing Vipassana. Bom saber que temos essa oportunidade no Brasil. Vou pensar com carinho nisso.. mas com medo também. Tudo isso me remeteu a 2012 quando fui para o RJ num Ashram. A rotina era bem mais leve, mas só aguentei 5 dias. Ainda assim foi mágico... consegui grandes libertações.
A meditação mais longa durava quantas horas em sequência?
Gratidão por compartilhar sua experiÊncia!

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