
Outra coisa interessante é saber o outro lado de alguns eventos sobre os quais tivemos somente a nossa visão e versão. Algumas coisas que para nós foram acontecimentos bobos, para outros colegas foi um drama pior que de novela mexicana, o que também é um aprendizado. Em princípio não dá mesmo vontade de voltar a falar e você fica com um pouco de horror da troca, e principalmente dos mais falantes. Mas aos poucos dá para ver a importância daquele momento "intermediário" antes de voltar à rotina e ter uma visão mais ampla das conversas em geral.
Também observava como era necessário ter cuidado ao falar e ouvir naquela hora. Você fica chocado com as coisas que algumas pessoas falam (imagine se vai direto pro mundo lá fora...), e percebi que algumas pessoas estavam particularmente sensíveis ao que era dito sobre elas. Rolavam umas cíticas a reações que as pessoas haviam tido em alguns eventos, rolavam trocas de impressões sobre eventos ocorridos com terceiros. Enfim, cada um passa por uma coisa meio épica muito própria durante o curso, e não dá pra esperar que todos tenham saído exatamente "purificados" da aventura, é preciso respeitar absolutamente tudo.
Outro tipo de meditação?!?!?
Neste dia nos é ensinado a praticar Metta-Bhavana, outro tipo de meditação onde tiramos o foco de nós mesmos e praticamos pensamentos de amor e compaixão pelo próximo. Pense em tornar-se um grande ponto de luz que emana boas vibrações para todos. Sim, é possível. Primeiro temos que fazer uma análise e nos certificarmos de que naquele momento não estamos cultivando nenhum sentimento de raiva, aversão, e então passamos a focar na felicidade de todos os seres. É como se toda a sua evolução na técnica o levasse a isso. Comecei a imaginar e a experimentar como era possível aplicar esta incrível mudança em cada momento da vida, em vez de gerar mais sofrimento, gerar somente boas vibrações. Foi uma seção muito especial para mim pois era a culminância de tudo o que havia passado e pensado durante o curso, e parecia muito natural que o objetivo fosse este: sair do foco de mim mesma e compartilhar as coisas boas. Não há como descrever como o universo inteiro (ou ao menos o seu e/ou sua idéia de universo) de repente faz sentido, não há palavras e mesmo com as limitadas que temos seriam muitas.

Ok, para não ficar muito viajante posso dar dois exemplos. Pensei em minha relação com a prática do karatê, no propósito em se praticar o karatê (uma questãozinha chata e constante, que assombra, vai e volta...), e que não havia muito sentido em praticar e desenvolver muito a sua técnica e não partilhar (seja trocando idéias com os colegas, seja dando aulas). Imagine se todos os grandes mestres que tornaram possível que hoje tenhamos acesso a esta maravilhosa prática tivessem praticado e guardado sua evolução para si (e tenho certeza de que alguns o fizeram). Imagine que você tivesse a jóia mais linda e preciosa do mundo e que ninguém a visse ou pudesse também admirar, o que seria ela? Outro: pensei em como me relaciono com as questões de sucesso financeiro. Posso trabalhar exaustivamente num projeto para seu sucesso e me esquecer de cobrar por ele, foco no objetivo de sucesso do projeto, e tenho dificuldades de querer ganhar dinheiro somente por dinheiro. Mas comecei a ver o processo como um todo, e como que o sucesso profissional e financeiro também é um meio de ajudar aos outros, tanto o seu projeto pode ajudar aos usuários quanto o seu sucesso financeiro pode ser uma forma de poder ajudar alguém. Enfim, todas as coisas ganhavam muito mais sentido quando tirava o foco de mim mesma e via tudo como parte de um grande processo que, sim, envolvia outras pessoas e seres e coisas - necessariamente.
De volta ao falatório, ou ordem na cozinha!!!
Por sorte minhas colegas de quarto eram mais que simpáticas, e na hora de dormir, a quietude habitual deu lugar a uma conversa interminável, haja assunto! Ouvíamos muita conversa nos outros quartos também, até que a gerente bateu em nossa porta pedido que diminuíssemos a conversa pois havia gente querendo dormir, bizarro! Conversamos mais um pouco e achamos por bem irmos nanar... Fui dormir com um zumbido pulsante no ouvido (depois de 10 dias nesta prática eu havia ficado muito sensível às sensações e barulhos do corpo, o zumbido pulsante parecia bumbo de escola de samba). Concluí que era o eco de toda a tagarelice do dia e fiquei bolada em como os (milhares de) barulhos que escutamos a cada dia nos afetam e ficam mais registrados e latentes do que pensamos. Credo!
Foto 1 - sala de meditação: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi169krRtYzvEFjltvNliRP-_6DrAm31xIaP70-ZyEUd0dhVTvckfdzQDorXar9oHfd3hstFpP2474tA-Tz-EJMsb3sY_kB8ae7FGIiRL15n93A1kP6UpWAImeHZWX0ErvtSOWH4yuGf7Q/s400/santi.jpg